Por CarbonoBrasil
Ron Pernick, Patrick Moore e Lester Brown apresentam em Florianópolis suas visões de como promover o desenvolvimento reduzindo os impactos ambientais
O primeiro criou uma empresa no setor de tecnologias limpas, a Clean Edge; o segundo fundou a ONG Greenpeace e o terceiro foi responsável pela criação do Worldwatch Institute. Ron Pernick, Patrick Moore e Lester Brown são famosos pelas ações em prol da saúde ambiental do planeta e todos concordam que não há outro caminho para o futuro da humanidade senão o uso de fontes alternativas de energia. A semelhança entre os três, contudo, acaba por aí.
Como fazer esta transição de fósseis para fontes limpas, qual a melhor opção energética e até mesmo o que pode ou não ser considerado energia limpa são alguns dos pontos os quais eles divergem. Os três participaram ontem do Fórum Internacional de Energia Renovável e Sustentabilidade – EcoPower Conference 2008, em Florianópolis.
Para Pernick são quatro as áreas nas quais as tecnologias limpas devem ser usadas – energia, água, transportes e edificações, e seis os fatores que precisam ser avaliados, que ele chamou dos seis “C” – custo, capital, competição, China, consumo e clima.
Tecnologias limpas, segundo Pernick, são aquelas que cortam ou eliminam emissões de gases do efeito estufa, reduzem o uso de recursos não renováveis, utilizam materiais resistentes e oferecem um desempenho igual ou superior às convencionais.
Em 2007, os investimentos em energia solar, eólica e biocombustíveis somaram US$ 77,3 bilhões e, em 2017, Pernick diz que chegarão na marca de US$ 254,5 bilhões. Ao todo, foram instaladas 2.821 megawatts (MW) de potência solar, 20.060 MW de eólica e produzidos 15,6 bilhões de galões de biocombustíveis no ano passado.
O empresário cita a China devido aos problemas ambientais enfrentados pelo país, que podem provocar novos grandes desastres. “Dezesseis dos 20 locais mais poluídos do mundo estão lá e 600 mil chineses morrem por ano por causa da poluição da água.”
Sobre o quesito competição, Pernick diz que é hoje dos principais fatores considerados na tomada de decisões e lembra as disputas entre cidades ou regiões para atraírem investimentos. “Existem vários ‘vales do silício’ no mundo, está acontecendo em todo lugar e se vocês quiserem atrair empresas de tecnologia limpa podem fazer isso”.
O especialista lembra ainda que é preciso pensar a longo prazo, pois as mudanças podem levar décadas. Mas ressalta que “estamos no meio de uma das grandes mudanças da história da humanidade”.
Transição energética
Lester Brown, por outro lado, cita vários grandes projetos na área de energias eólicas para mostrar que o mundo já vive uma transição para uma matriz energética limpa. “E está acontecendo mais rápido do que imaginávamos”, afirma.
Brown lembra que, neste ano, a capacidade de energia nuclear irá crescer 1 mil MW e a de energia eólica, 24 mil MW. “As coisas mudaram e estamos em transição de antigas fontes para novas”, comenta.
O ambientalista alerta que é preciso uma reestruturação econômica e que todos se mobilizem. “Todos precisam fazer algo. Escolha um assunto que goste, encontre uma organização e faça algo”, afirma.
A polêmica nuclear
Enquanto Pernick afirma que energia nuclear não pode ser considerada uma fonte limpa, Moore diz que a única maneira de reduzir as emissões de gases do efeito estufa é através de medidas que incluem a implementação de meta agressivas para o uso de energia nuclear.
“As hidroelétricas e nucleares são as únicas fontes que não emitem dióxido de carbono (CO2) que podem substituir os combustíveis fósseis e satisfazer a demanda energética global”, afirma Moore, que vem provocando polêmicas em todo o mundo devido a postura em defesa das nucleares.
Pernick diz que além dos riscos de proliferação de armas nucleares e da falta de uma resposta para o problema do resíduo tóxico, há os altos custos da implantação de uma usina. “Muitos países não tem condições de implantá-las”, afirma.
Na opinião de Moore são justamente os movimentos ambientalistas os obstáculos para se atingir uma redução de CO2 realística, pois a maioria condena as grandes hidrelétricas e a fonte nuclear. Durante a palestra, o ambientalista apresentou alguns obstáculos para o uso de energia solar, eólica e biocombustíveis, mas defendeu ainda o uso da geotérmica. “Apenas pessoas ricas podem colocar dinheiro em fontes eólicas e solares, pois ainda são muito caras”, sustenta.
Sob o argumento de risco da proliferação de armas nucleares, Moore diz que “nenhuma arma nuclear foi feita de lixo nuclear” e que, se fosse esta a lógica, os combustíveis fósseis deveriam ser combatidos, pois homens-bomba só necessitam de um pouco de gasolina e um detonador para provocar atentados terroristas.
Moore afirma que o Greenpeace cometeu um erro no início do movimento ao condenar a energia nuclear sem perceber as diferenças entre armas nucleares e a produção energética. “O vazamento da Three Little Island, em 1979, foi uma história de sucesso, pois ninguém morreu e os engenheiros construíram uma redoma que impediu vazamentos”, defende.
O ex-ativista que ficou famoso mundialmente ao aparecer em fotos confrontando barcos de caça de baleias e salvando focas, conta que quando perguntado se moraria perto de uma usina nuclear, ele disse que viveria dentro de uma. “Eu ficaria muito feliz em morar em uma usina nuclear pois é o lugar mais seguro do mundo”, respondeu à repórter.
Para resolver o problema dos resíduos tóxicos, Moore disse que já é possível e dá exemplos de diversas usinas pelo mundo que já reutilizam uma, duas ou até três vezes a mesma matéria-prima. Segundo ele, o problema são os custos ainda elevados. “Mas nós já temos legislação para reciclagem de outros materiais que também custam caro, como o papel e vidro”, justifica.




