Por José Pacheco
Quando estava mesmo a chegar ao balcão, uma senhora professora foi chegando e colocou-se na frente da fila. Manifestei o meu desagrado. Ela não corrigiu a atitude e disparou: Ouça lá! Mas você é colega, ou contratado?
Nos tempos da velha senhora, era tudo bem mais simples. As aulas começavam em Outubro e não se perdia tempo com reuniões. Na distribuição de horários, o respeitinho era muito lindo, a antiguidade era um posto. Hoje, também assim é, mas está tudo mais ritualizado. Os burocratas do Ministério impõem uma agenda e as escolas cumprem-na, em penosas reuniões. Penosas e inúteis, porque, ressalvadas raras excepções, não vejo que algo melhore nas escolas, por via das reuniões.
Quando fui para professor, tudo se resolvia em menos de um piscar de olhos. Havia coerência: para uma prática solitária, uma preparação solitária da prática. Não se copiava o projecto da escola do lado, nem se fingia ter algo para mostrar ao senhor inspector. Ainda não tinham sido inventados planos, relatórios, projectos curriculares de turma... Ainda não se havia enfeitado a mesmice com inúteis acessórios (eu escrevi mesmo INÚTEIS).
Mas há coisas que não mudam. Por serem tão semelhantes situações distantes quarenta anos umas das outras, arrisco algumas previsões para o novo ano lectivo: o Ministério irá nomear mais algumas inúteis comissões, lançar mais alguns inúteis projectos. Os inspectores irão entreter-se com inúteis avaliações externas. Os professores irão desgastar-se em inúteis exercícios burocráticos. Tudo dentro da normalidade - "a uma opção burocrática corresponde uma prática servil". Após o cumprimento formal das tarefas que abrem o ano lectivo, cada professor vai fazer pela vida, tão sozinho quanto antes estava, receoso de avaliações de desempenho, solitariamente exposto a humilhações sofridas de alunos, de pais e de certos "titulares"...
Quando fui para professor, o meu primeiro salário não cobria as despesas com alimentação e transporte. E, na primeira escola onde fui colocado, aconteceu de me ter sentado na "cadeira do senhor director". O dito cujo irrompeu pela sala dos professores em altos berros:
Bem me avisou a servente!
Ponha-se no seu lugar!
Eu não me pus...E, como adiante se verá, o professor Francisco também optou por não se pôr...
Como muitos que eu conheço, o Francisco era um excelente professor, mas ocupava um dos últimos lugares da lista graduada. No primeiro concurso, apenas conseguiu um "horário de quatro horas" numa escola bem longe de casa. No ano seguinte, um "meio horário". No terceiro ano, trabalhou em três escolas, para "completar horário" (atente o leitor nas expressões entre aspas). O magro salário mal dava para a gasolina. Mas sempre eram mais uns dias de tempo de serviço...
Ouçamo-lo:
Não havia condições para se fazer as coisas como deveria ser. Os meus colegas mais novos queixavam-se de que aqueles que tinham horário incompleto trabalhavam bem mais do que os efectivos. Que os efectivos ganhavam o dobro dos contratados... E que era cada um por si.
Um dia, cheguei à segunda escola em que trabalhava, bem por altura da hora do almoço. Apesar de só dispor de 30 minutos para comer qualquer coisa, antes de ir dar as minhas aulas, fui para o último lugar da fila. Quando estava mesmo a chegar ao balcão, uma senhora professora foi chegando e colocou-se na frente da fila. Manifestei o meu desagrado. Ela não corrigiu a atitude e disparou:
Ouça lá! Mas você é colega, ou contratado?
Isso foi a gota de água. Fui-me embora.
O Francisco confessa "viver em desgosto". Ele gostaria de ser professor, mas recusa participar do "salve-se quem puder". Quantos Franciscos já terá perdido a educação deste país?
JOSÉ PACHECO Mestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.




